Sou um felino doméstico. Vagabundo ou não, ando por aí.
Adoro muros e telhados alheios.
Namoro de madrugada – a lua e a gata.
Faço poesia e muita prosa.
Sou cinzento na cor e colorido na alma.

12/06/2018

certeza


Resultado de imagem para desejos

Não sei até quando terei fome e sede desse amor de nós dois.
 Não sei até quando, meu amor, eu perdoarei os seus deslizes. Até quando aguentarei as ofensas sórdidas de um ciúme hipócrita de uma posse pequena. Não sei até quando, meu amor, o meu amor aguentará suas maldades, seus desleixos, sua incúria no trato. Não sei meu amor, até quando vale a pena esse desvario, essa loucura, esse contrato de amar.
Não sei até quando terei fome e sede desse amor de nós dois.
Por enquanto, vou levando, driblando, negaceando a verdade. Pois tudo que se quer nessa arte de amar é a paz, mesmo sabendo que sou a segunda via em sua vida, que o privilégio não é meu de acordar todas as manhãs ao seu lado, que tenho as sobras de um lar partido, dividido, desalojado em tardes frias.
Ah, meu amor, não sei até quando terei fome e sede de nós dois.

11/06/2018

Ritmo

Resultado de imagem para gato cinzento na janela



Apertei o play e de repente a casa foi ocupada pelas cordas de uma guitarra espanhola. Era Paco De Lucia.  Bailei só, como um toureiro à sombra do touro. Rodopiei com minha capa invisível e no término da música, já sem folego, restou-me o grito de olé! E do outro lado da janela estava ela, espiando-me com um sorriso de surpresa. Apertei o off e de repente as cortinas se fecharam e o silêncio voltou a enfeitar o meu lar.

10/06/2018

Vida



Resultado de imagem para gato cinzento dormindo



Quando dei por mim, estava num lugar desconhecido. Minhas retinas não reconheciam aquele habitat cinza e frio. Tudo era estranho. Estava literalmente perdido. Procurava-me através do faro, mas só identificava o cheiro de outros seres. Olhava para cima e não encontrava a lua. Fechei os olhos novamente e voltei a sonhar. Era assim, sonhando, que descobria que ainda estava vivo.

17/09/2016

translado

Resultado de imagem para gato dormindo no capim

A noite e o dia se misturam. A lua e o sol se visitam.  E os olhos felinos de um vagabundo noturno testemunham o apagar das estrelas.  Fecha a cortina da noite, e o palco da vida se doura com o sol.  É dia, os pássaros anunciam. O corpo boêmio de um gato vira-lata se esparrama numa velha touceira.

03/09/2016

Noturno



Quando a noite chega, a magia acontece. Tudo fica mais claro. Meu corpo desperta. Minha alma descansa e meus olhos enxergam o inevitável. Por mais que eu tente não consigo abandonar a lua.  Está na minha natureza. 

30/08/2016

Vazio


Resultado de imagem para folha em branco para escrever

Vasculho as gavetas, os bolsos das calças, pastas e arquivos, e não encontro nada. Nada de novo, nada importante.  Estou como uma folha em branco a espera de uma história.

30/07/2016

Deprê


Eu não queria ficar naquela inércia indesejada, num faz de conta sombrio e improdutivo. O que se faz quando se tem a metade do nada? Sim, a metade do nada.
Quando algo não te pertence e você ainda tem que dividi-lo com alguém, então você tem a metade do nada.
Alguém sabe como se livra de algo que não se tem?
Pois é, andei assim, em cárcere, mesmo tendo todo o horizonte à minha frente.

24/07/2016

Síntese


Sou água? Sou fogo? Talvez eu seja a mistura dos dois elementos. Talvez seja necessária a ebulição para nos transformar em rocha. E na complexidade da existência sou ilha em formação.
Ilha rochosa e nua à espera das primeiras camadas de areia, das primeiras sementes perdidas ao mar.
Sou água? Sou fogo? Não, não sou somente o que há dentro. Sou alma à espera de um corpo. Sou alma que vaga externamente conhecendo o mundo.
Certamente sou os quatro elementos mixados. Uma mistura necessária à existência.
Mas certo mesmo é que sou matéria e energia. Faço parte de tudo. Sou vida.

19/07/2016

O retorno

Resultado de imagem para estrela no ceu


A música cobriu-lhe o pensamento. Esqueceu-se da tristeza e caminhou pelos acordes do violino. Em seu tapete invisível, rodopiou e pulou como se fosse uma noiva. E na última nota da melodia: à volta. Foi apanhada pela melancolia. A música a abandonou no meio do dia. Ela nunca mais voltou a dançar em rodopios... Vestiu-se de silêncio até o seu último suspiro.
Agora, transformada em estrela, ouve as harpas tocadas por anjos. A cada acorde ela se torna mais brilhante num universo não muito distante.

16/07/2016

Estranheza




- ¨ Aqui há escassez de muitas coisas... Falta o verde natural das coisas. Sem o verde, não teremos do que dele necessitamos.  Aqui há excesso de concreto. Abstratas somente as nuvens quando cismam em correr. Assustou-me as alturas dos prédios quando por aqui cheguei. Corri os olhos à procura do céu e deparei-me com uma carreirinha de pombos no fio de luz. Achei graça na hora. Mas ainda não tinha assistido ao filme de Hitchcock. ¨
Ouvia, quase em silêncio, a senhora gorda de cabelos brancos, sentada ao meu lado na poltrona do coletivo.  Limitava-me a um simples aceno de cabeça entre uma respiração e outra. Pensava como tinha fôlego e assunto pra falar sem parar. Às vezes, por uma questão de educação, esticava a minha boca como se eu estivesse sorrindo pra ela. Uma técnica aprendida desde cedo, ainda na escola. Ao descer do coletivo sorri de verdade um sorriso de alívio. Olhei para cima e não vi nada além de concreto armado. Abaixei a cabeça e sorri um sorriso de angustia. De angustia...



09/07/2016

Depois


Resultado de imagem para o sol

E depois da chuva, o sol. O sol invadindo os espaços sombrios, transformando as escassas sombras em espaços desejados e concorridos.  Meu corpo que há instantes se ensopara com a água da chuva, agora reluz o amarelo dourado do sol de verão.
É sempre assim: depois das lágrimas, depois dos maremotos, sempre teremos o sorriso, a brandura em águas marinhas como resultado final.
Somos a natureza. Somos o universo. Somos o dia e a noite. Somos a água e o fogo. Somos o fogo e o ar.  Somos terra e água.
Somos.
Sou!

05/07/2016

Fóbico



O corpo cansado desperta ainda pesado.
Não sabe se levanta ou se permanece escondido entre as cobertas.
A lua chegara e partira sem que ele a visse.
O sol a pino não consegue invadir aquele espaço ¨ darkiano ¨ e gelado criado especialmente pra ele.
Esconde-se em seu espaço de todos e de tudo.
Ele não era um vampiro, mas era como um.
Sua companheira era o medo.
Ele tinha medo da vida
Ele tinha medo de amar
Mesmo sendo, ele tinha medo de se descobrir humano.

04/07/2016

Andante



Ainda com o corpo molhado e a alma lavada, cantei uma canção de amor. Pisei em poças de lembranças e sorri para aquelas pessoas que me olhavam assustadas não entendendo nada.
Não me importei com os olhares interrogativos e segui em frente no caminho construído pela correnteza.
Ao chegar ao meu destino, meu corpo se encontrava lavado, seco e leve.O meu coração sabia o que queria e a minha alma também.
Não me importei com os olhares interrogativos, apenas sorri pra quem devia.

02/07/2016

Devaneio





Quando percebi, estava caminhando com o meu corpo molhado pela chuva que caía naquela tarde cinza. Sou assim, abstraio-me do mundo que me cerca e recrio em cores abstratas paisagens e gente. Vago à procura do irreal na realidade existente.  Gosto do avesso, do revés, da vicissitude.  Sou surreal? Não sei... Talvez eu seja aos seus olhos; talvez eu cause a você estranheza.
E aquele senhor que estava na janela a me ver passar caminhando na chuva, acenou-me com a cabeça e com um sorriso nos olhos. Percebi imediatamente que a ele não causei estranheza por andar calmamente na chuva e sim desejo de estar em meu lugar caminhando sem a preocupação se mais tarde teríamos ou não o sol para nos secar.

30/06/2016

Bailando



Baile

Corpos que se entregam
carregam, guiam e são levados.
Passos precisos e confusos
Mãos que seguram e afagam
Olhos que se encontram em paixão
Corpos que se entrelaçam em desejos
Almas que dançam o amor
Almas que flutuam numa cadência melódica
Corpos que ditam a paixão
que gritam telepaticamente
em movimentos bailados
nos passos do tango
todos os nossos desejos.


26/06/2016

Dualismo

Imagem relacionada


Às vezes acordo muito cedo e fico esperando o nascer do sol. Gosto de ver a transformação do céu; das nuvens correndo e dos animais ao longe, acordando. Gosto da mistura de sons invadindo o silêncio da noite.
Sento-me lá fora e fico recebendo as novidades trazidas pelo vento. Gosto de sentir o cheiro do dia se misturando as coisas. O dia invade, a noite acaricia. Gosto desta coisa que admite a coexistência de dois princípios.
O que seriam dos nossos dias se não existissem as noites? O que seriam de nossos sonhos se não existissem o dia para podermos realizá-los?
Gosto de acordar cedo para ver a noite cedendo ao dia, mesmo que eu ainda não tenha dormido.

23/06/2016

Metamorfose




O meu corpo cai em queda livre como as águas espumantes de uma cascata. Vivo num eterno despertar. Descubro a cada momento seres com os mais diversos sentimentos habitando em mim.
Sou águia a caçar/sou presa a morrer. Sou sol a despontar/sou lua a crescer.
O meu corpo desliza em geleiras formadas nos pontos mais alto das montanhas. Vivo a frígida vida num tempo de exacerbação – eu sei. Vivo no contraponto da vida; vivo em lentidão.
Sou o lenhador e a árvore/sou a árvore e o lenhador. Sou o machado que mutila a árvore, que mutila o lenhador e rasga o vento.
O meu corpo cai em queda livre como as águas geladas de uma cachoeira.
O meu corpo simplesmente se movimenta ao redor da vida.
O meu corpo flutua entre o nevoeiro e a lucidez.

19/06/2016

Transformação




Sinto-me como o vento em calmaria que a qualquer momento se tornará ventania. Sinto-me como um céu avermelhado que a qualquer momento se tornará marinho. Às vezes é necessária uma pausa pra continuarmos o caminho. Paro neste instante e refugio-me em minha própria história. Saudade que mato com os olhos e que devoro com beijos e carícias. Saudade que saúdo com canções e taças de vinho. Sinto-me como um furacão que a qualquer se tornará calmaria. Sinto-me como um céu enegrecido que aos poucos dará passagem ao vermelho do dia. Sinto-me as quatro estações em um único dia.

18/06/2016

Regresso





Tenho a necessidade da volta. Não importa se o caminho que percorro é linear ou curvilíneo, só sei que no final, sempre volto pra casa. Volto certamente em traçados mais retos, com poucas nuances e com as arestas cortadas, arredondadas.  Cansei da obtusidade alheia. Quero a vida não como ela é e sim como acho que ela tem que ser.

[Tu não estás agora na paisagem existente]

Tenho a necessidade de ir e vir. Mesmo que seja por caminhos não escolhidos por mim. Agora estou voltando pra casa sem a ajuda do GPS, porque hoje caminhei com os meus próprios pés.

[Não encontrei a marca de teus passos ao lado dos meus]


16/06/2016

Fora de ordem




Às vezes acordo com a sensação de que pequei ou de que estou pecando. Hoje, acordei com a sensação de que algo não estava na ordem certa. Olhei para um lado, olhei para o outro, e só o que via eram paredes frisadas e manchadas, sufocando-me, transformando as minhas sensações em algo maior que a minha própria existência.
Às vezes acordo como aquelas manhãs nubladas de verão: quentes, secas e ardentes.
Às vezes acordo como aquelas tardes densas: com nuvens e trovões.
Às vezes a vida sufoca.

Sufoca-me às vezes.