Sou um felino doméstico. Vagabundo ou não, ando por aí.
Adoro muros e telhados alheios.
Namoro de madrugada – a lua e a gata.
Faço poesia e muita prosa.
Sou cinzento na cor e colorido na alma.

27/01/2016

Coisas de gente



O vento trouxe nuvens pesadas para as suas cabeças. O tempo tornou-se sombra, escondendo o amarelo vivo do sol. De repente pingos grossos caídos do céu açoitava a terra. O quintal ficou livre de gente, deixando mais espaço para as outras vidas. As folhas das árvores se molhavam e se agitavam frenéticas, deixando escorrer pelos seus troncos a água celeste carregada de energia.

O cheiro da terra molhada invadiu a casa trazendo a todos os exilados, paisagens puídas, onde pé descalço era símbolo de liberdade.

Os mais velhos contavam casos antigos, relembrando as peripécias do outro como se estivessem relatando o segredo mais profundo. Riam as gargalhadas como se a chuva que caia torrencialmente não estivesse logo ali depois da janela. As crianças, inclusive o gato, permaneciam paralisadas – quase estátuas - ouvindo silenciosamente cada palavra existente. Descobrindo em histórias contadas que aqueles rabugentos de agora já foram, um dia, crianças peraltas como elas.

A chuva passara. O cheiro se dissipara e as histórias foram interrompidas pelo arco multicolorido formado num céu limpo de nuvens. A farta mesa do café da tarde continuara posta. Todos voltaram para o quintal para presenciar o fim do dia. Menos o gato que continuou deitado no sofá sem entender nada do que acontecera naquele ambiente agora silencioso e absolutamente vazio.


8 comentários:

Gracita disse...

Belíssimo conto com nuances encantadoras ao narrar com soberba os efeitos da chuva
E o gato pôde desfrutar do silêncio mesmo que não tenha compreendido o motivo
Um abraço

Tina Bau Couto disse...

Cheiro de terra molhada
Ventos
Tempos
Tanto há

Lá coments sobre seu coment cinéfilo
;)

✿ chica disse...

Conto maravilhoso e pude sentir até o cheirinho bom da terra molhada! Lindo te ler! bjs, chica

Cristina Sousa disse...

Delicioso conto, adoro o cheiro de terra molhada.
Gostei

Beijinhos

Miúda disse...

Foi tao bom de imaginar.. mas sabes uma coisa...neste momento e com este tempinho, preferia estar como o gato :D

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, a imagem não abriu, a historia muito bem publicada agradável.
AG

Ivone disse...

Que lindo, me fez lembrar do tempo em que era tudo terra,nas ruas,nos quintais, quando chovia as águas se infiltravam e logo tudo ficava bem, sem nenhum alagamento!
Minha infância aqui em São Paulo, bem na Capital onde ainda moro, era bem linda!
Hoje chove e não há por onde as águas saírem, asfaltos e lixos jogados,entopem tudo, ainda tenho um quintal lindo que preservei, mas do portão para fora as coisas são diferentes, minha linda Sampa de outrora ficou na saudade!
Amei ler, adoro chuva, imagino a confusão na mente do lindo gato cinzento dos olhos azuis!Acho que gato pensa, todos os bichos pensam e o homem se acha o dono do mundo!
Abraços, divaguei um pouco por aqui.

Gisley Scott disse...

Ah que texto gostoso!!! Me perdi nos detalhes, fiquei com fome com a mesa posta! Senti como se fosse uma convidada da família ao ler os trechos em que as crianças ouviam das suas prévias gerações!!!

Bateu saudade do Brasil !
Bjos!

Querido Deus,obg por me exportar!